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A última manhã

A placa antes do radar nos avisava que o limite permitido era de 40km/h em nossa via. Observei que, acompanhando meu ponteiro e a proximidade do carro à frente que ambos seguíamos a aproximadamente 45km/h. Mas na hora de passarmos pelo sensor, a frenagem o levou a passar a 26km/h. Precisava diminuir tanto assim?
Era só o início de nosso trajeto diário. Diversos kilometros com muitas paradas, conversões e veículos dividindo a estrada. O silêncio de dentro do carro foi quebrado com um discurso que não era nada recente. "Acho que pra minha idade até que eu não estou tão acabada assim", lançou-me ela, como quem diz ao vento, como quem fosse uma frágil e simples dama, rejeitada por todos e uma falha na vida. Mas eu sei que tipo de atenção ela buscava. E também sei o quanto isso me era penoso por explicar - tendo em vista que não fora a primeira vez - e o quanto me irritava ao vê-la com tamanha baixa auto-estima. 
Comecei com um "Pelo amor de deus, Lavínia, pare com isso", talvez eu devesse ter me segurado. Talvez fosse melhor que eu apenas desse corda. "você sabe que você não tá acabada, que todo mundo que te olha acha teu cabelo lindo, que todo mundo repara no seu quadril desenvolto! Você sabe que você é uma pessoa linda e que esses padrões ridículos de beleza que não sei quem que enfia na tua cabeça são tão falhos quanto os próprios autores deles!". Não pude olhar para o lado para ver sua reação porque o trânsito estava delicado, tive que inclusive aumentar a voz devido ao alvoroço das gotas sobre a lataria do carro. A torrencial chuva se fazia agora mais presente, recrutando maior número de carros na rua e cautela de seus motoristas; mas o que eu percebia era que ela não pretendia me responder. Não pude verificar se seus olhos baixaram ou não. Decidi continuar e talvez ali devesse ter parado. 
"Eu não sei porque você ignora tudo o que eu falo, eu não me canso de dizer o quanto você é linda o quanto você é atraente, mas me irrita e talvez seja um problema meu, uma deficiência minha não estar preparado para lidar com alguém como você, que não consegue se ver dessa forma, que simplesmente não enxerga como todos os outros enxergam, pois se há alguém que diz o contrário, certamente é por inveja ou recalque! Eu compreendo a anorexia, mas não é por causa disso que eu saiba lidar com alguém com essa condição. E eu também não quero ser o cara que fica te dizendo que isso é bobagem e que você precisa conversar com alguém! Você não aceita isso, e só nos machucamos ainda mais! Não vou mandar você se tratar, eu já falei isso e não foi produtivo. Mas as minhas respostas padrões não servem mais. Se eu não respondo, você reclama. Se eu sou sincero, você não acredita. Se eu falo empolgado de mais, tentando entrar no seu clima, diz que sou forçado e que estou sendo falso. Não importa o que eu diga, vais achar algo para reclamar e brigar comigo. E talvez não seja culpa sua. Talvez seja seu modo de dizer 'me deixa'. Porque você não consegue dizer de outra forma..." 
Coincidentemente neste momento o pneu atinge um buraco. Fez bem, embora eu não pretendia que isso acontecesse, pois me calou. É impressionante como esses buracos sempre voltam. É essa a nossa Joinville de toda gente. Eles volta e meia tampam os buracos, mas creio que devido ao número grande de caminhões que passam por ali, não há como evitar. Ou quem sabe um asfalto de melhor qualidade? Não faz nem um mês que haviam reformado aquele trecho e novamente já beirava o abismo.
Pedi desculpas por estar falando daquele modo. "Eu não quero brigar, eu só não sei lidar mais com você, com essa situação. Com essa falta de crença sua para com minhas palavras, não consigo viver nessa ilusão de estar fazendo o certo e saber que nada adianta. Que tudo o que faço, faço por mim. 'Tudo o que vem volta', você me diz. Ora e eu não sei? Aguardo ansiosamente pelo retorno do que planto diariamente, mas você, o que pensa? Que as coisas ruins que fizeste para mim vão lhe retornar. Mas não é isso, minha criança! Pra quê ser tão negativa? Por que pensar sempre no pior? Sei muito bem que já deixei de ser um entusiasta há tempos e que possuo meu lado sombrio, mas sejamos mais coniventes com nossa realidade! Não estamos tão mal assim!" 
Quando ela finalmente falou, eu já nem sabia mais do que falava, me encontrava perdido no sentimento de frustração constante, nada daquilo era novidade. Me repito novamente. Tudo isso eu já passei, onde faz o disco destravar? Mudou de assunto de repente. Nada com nada. Até aí, nenhuma novidade. 
Decidi olhar para fora, tentar distrair, fugir daquilo, mas nem deu tempo de procurar algo, algo me encontrou. Um braço entrou pela janela puxando meu cinto, click e ele se soltou. Outro braço me puxou pelo cinto da calça, parecia que eu pesava nada, pois a facilidade que me puxaram pra fora do cara deu a impressão de que quem me puxava não fazia esforço nenhum. Devia ser alguém muito forte, mas quando eu saí do carro, caí como que num rio. Onde estavam os braços que me puxaram? Caí sem boia e ao me virar pra tentar me pendurar na porta, o carro já não estava mais lá, o rio agora corria me levando com a margem a pelo menos 15 metros para os dois lados. Que sonho doido seria esse? Decidi me deixar levar pela correnteza, já que boia não tinha mesmo, nem sequer vontade de nadar pra lugar algum. Mas um som me chamou atenção, em meio ao estrondo de água batendo, um canto parecia surgir mas sem aumentar muito de volume, por baixo das águas. Não podia parecer mais clichê, minha visão era de uma ostra ridículamente gigante que portava uma sereia cantando em italiano. Preciso parar de assistir desenho. 
A verdade é que estou em coma até hoje, fomos atingidos por um caminhão e só eu "sobrevivi". Nunca pude ouvir uma resposta dela, terminei nossa vida reclamando de uma dificuldade que ela tinha que eu simplesmente não era capaz, não era instruído o suficiente para saber lidar. Não era culpa dela. Eu deveria ter ajudado, deveria ter tido mais paciência. Era meu dever. Eu queria me entregar de corpo e alma e deveria ter agido melhor. Esse tempo eu nunca mais vou poder recuperar. Eu deveria saber tolerar mais... deveria... não 
ter
sido eu mesmo...

Tchaub

Eu tenho tanto o que aprender, eu tenho tanto para amar, tenho tanto para doar, tenho tanto que aproveitar. Como evitar o sofrimento, quanto eu me entrego de corpo e alma, sem receio algum? É como saltar de um penhasco sem a certeza de ter afivelado corretamente o parachute. Você simplesmente se entrega a uma sensação única e sensacional! Mas e quanto ao pouso? Pode ser que esteja tudo certo e terminado o mergulho, esteja pronto pra saltar novamente, quantas vezes forem necessárias. Mas posso muito bem me estatelar no chão e dar de cara com a realidade. E que realidade seria essa? A de que 'só sei que nada sei'? Pois de todas as coisas que faço errado e sou criticado, 80% das vezes eu estava pensando fazer algo certo e nos outros 20 eu nem sabia o que estava fazendo... Não estava prestando atenção. Será que é isso que me falta? Dedicação? Atenção? Mas eu sou todo amores... Pelo visto não. Quero tanto me dar bem contigo. Quero tanto poder acordar todos os dias na cama, ao teu lado e ver teu rosto se virando pra longe... Brincar de puxa-puxa de coberta durante a madrugada, buscar mais água na geladeira, levantar pra escovar os dentes e voltar a dormir... Quero tanto você em meus braços... Te acolher e proteger; confortar. Mas eu não consigo... Meu jeito desleixado e libertador de ser te deixa tão insegura. Aos teus olhos sou capaz de tudo. Inclusive te enganar e mentir em cada gesto e frase. Talvez eu te superproteja por causa disso. Tento forçar algo que, se não acontece naturalmente, não irá acontecer. Te trato com a maior transparência possível, fazendo inclusive o que você jamais faria, pois afinal de contas, temos nossas vidas separadas; precisamos delas. Não é pra criar dependência. É pra agregar uma parceria e cumplicidade. Poder contar com o outro, mas também saber ouvir. Dialogar antes de tirar conclusões preciptadas; amar mais, julgar menos. E eu que sou tão teu... todo teu. Tão só.

Treze Nove Avos

         —Ouvi dizer que será muito legal! Pra falar a verdade, há algumas semanas eu fui lá, mas era algo mais reservado. Só estacionava carro Top Line! Tratava-se de um flat com uma vasta adega e água tônica aos montes! Ficamos pouco tempo, é verdade, mas foi inesquecível! Sinto que dessa vez será ainda melhor!
Oliver tentava persuadir seus amigos para irem nessa festa que prometia ser "do caralho", embora ele mesmo não tivesse tanta certeza assim do que ocorreria, na verdade.  —Tá, então vamos, né! Respondeu-lhe Bruna, sem muita convicção, mas animada com a possibilidade de continuar no embalo. Acompanhada de seu marido e o irmão dele, embarcaram os quatro em uma belíssima voiture française e partiram em direção ao evento!
—TXR? mas isso não é nome de motocicleta? indagavam todos, com exceção de Oliver, que supostamente sabia de alguma coisa. —Ah, todo mundo estava falando, lá dentro. Parece que tinha até evento no Face. E tinha mesmo. 'Amazin Day!' uma festa diurna que daria sequencia ao evento n'O Jardim, na noite passada. Mas o que Oliver estava prestes a vivenciar, ele não esperava nem em 100 vidas.
         Chegaram ao local passava pouco das 8 da manhã. Foram umas boas 10 verstas para atravessar a cidade, mas o trânsito era tranquilo, nessa hora do dia. Alguns carros aguardavam do lado de fora, o que era estranho, pois havia estacionamento interno. Os semblantes dos já presentes também não era o dos melhores. A dúvida pairava.  —Vamos descer e dar uma averiguada, concordaram.
         —Bom, eu reconheço aquele cara ali e esse outro também. Mas não sei por que ainda não entraram... Os nervos do pessoal variavam entre a euforia e o desespero, a ansiedade e o ódio(!). Parece que o evento só teria seu início a partir das 11 horas. Faltava ainda mais de duas horas para que pudessem entrar e descobrir o intuito do evento - que por hora era apenas de alta irritabilidade para os mais apressados. Muitos foram embora pra casa, alguns mataram tempo na lanchonete da esquina (coitado do dono, certamente não estava aguardando clientes naquela direção - pra frente), e um grande pessoal ficou por ali mesmo, próximo da entrada. Música nos carros havia pouca. Parecia ser um ambiente residencial, embora a TRX fosse uma casa de eventos, portanto, comportaram-se o tanto quanto era possível para não atrair a atenção das forças legais. —E aí, Oliver, vamos ficar aqui? Tá podre! fazia sentido. "Mas nãão! Fiquemos! Sei que vai dar boa! Não podem esperar um pouco mais? A resposta era não. E tão logo lhes assegurou que daria um jeito de chegar são e salvo em casa - não importando o horário, partiram! E aí a coisa muda de figura.
         Beleza, e agora? Não encontro o Doug, antes das 11 não vai ter jeito mesmo de entrar. Se bem que eu ainda tenho essa meia garrafa de vodka aqui... Argh! Puritana a bixa é braba! Não rola. Então vamos recapitular: lá está o Cris e aquele cara louco... o "lutador" também está por ali, patricinhas cheias de merda e as emos que quebram tudo... Opa, o maluco do alargador tá ali. —E aí cara, tudo certo? 'Tão, só às 11h a parada aí. Não quer descer lá e buscar uns energéticos pra nós, para que possamos terminar isso aqui? Puro assim não dá. Até já! Cara engraçado. Ele é daqueles fortinhos assim que não são muito altos; boas companhias. No carro com ele, mais três gurias, salvo engano. Não reconheceria nenhuma delas, se aparecessem na minha frente novamente. Paga preço. Mas ei, que carro é aquele(!), apareceu agora. Saveiro vermelha, certeza que tem som. Um cara e duas minas, como couberam? "Ai amiga, tô com muito frio!", dizia uma delas, abraçando-se na tentativa falha de se esquentar. Vestia um cropped cor bege, rosa claro, cor-de-pele (essas que homens não sabem diferenciar, sabem?) e uma saia longa preta com corte lateral, deixando exposta uma de suas belas pernas;, firme e modelada. Os óculos delatavam sua altitude, assim como seus curtos, porém frenéticos movimentos - alguns diriam até mesmo espasmos - em resposta à música que tocava com grave digno, na Saveiro. Pensei com meu zíper, "Essa jaqueta não me serviu de bosta nenhuma, durante a noite, finalmente terá uso". Aproximei-me das duas sem dizer nenhuma palavra, tirei a jaqueta e gentilmente a coloquei nos ombros da bela morena de cabelos longos e escuros. A reação fora positiva e eu voltei a me afastar, voltando pra perto da garrafa. Pena mesmo que a garrafa andou sozinha e consegui acertá-la, tão levemente que parecia que caia em câmera lenta. Mas não foi. Caiu e quebrou, derramando mililitros precisos que puta que pariu(!), onde eu iria arranjar de volta, agora que os energéticos estavam chegando? Tentei salvar um pouco, mas devido a possíveis fragmentos minúsculos de vidros que não cansavam de rasgar-me as entranhas, a deusa amazona não me deixou tomar. Detentora da jaqueta nem tão cara assim, julgava exercer certo poder sobre mim. Ela ainda não sabia que estava correta. "Que fase", foi o que consegui proferir. Paguei preço.
         —Ô, qual que é teu nome? Ai, Gui, to muito louca! Que chato que só vai abrir às 11, né? Meeu, tem uma hora ainda pra gente ficar aqui, viajando. Ô amiga, por que ele não fala comigo? Que cara chato, né... Ai, preciso ir ao banheiro. E foi. Parece-me então que a menina não parava de falar, ou pelo menos até que a bixiga falasse mais alto. Subiu em um dos apartamentos da rua, com uma garota que ali morava e foi voltar só mais perto das 11. Nesse meio tempo fiz amizade com o casal. Parece que haviam também se conhecido naquele dia, e coincidência ou não, estávamos na mesma festa, antes. Eu me lembrava de pouca coisa e vou lembrar de ainda menos disso que vai acontecer agora, mas não tem problema. Prazer, prazer. Daora o carro. Legal, legal. Onze horas. Finalmente bateu e eu já estava sem camisa, derretendo. Aquela Afrodite mulata já havia voltado e estava ali, ansiosa. Tentei acalmá-la, aproximei-me e a beijei. Ela beijou de volta; fogos de artifício. Seus olhos que me devoravam, seu toque, sua boca na minha, que loucura. Locura que eu não conhecia o preço a ser pago. (***) Vamos entrar? Mas peraí, como assim tem que pagar? Meu corpo não está preparado para isso! "Ei cara, vi que você tá sem dinheiro, mas eu troco esses energéticos aí pela sua entrada, o que me diz, hein?" E eu lá tive escolha? #Partiu
         Lá dentro era demais. Dois ambientes, algumas antessalas e uma formosa escada de madeira que levava ao deck. O brilho do sol escaldante refletia na água da piscina e abria o sorriso de todos os presentes. A vibe era insana. Andava por aí com a Pocahontas brasileira e consegui, mediante contrato verbal com Cris, um combo para finalmente diluir os energéticos do cara-do-alargador. Paguei preço. Lá pelas tantas decidi que era hora de sentar e dar uma recuperada (leia-se 90 minutos de soneca sem baba no sofá à beira da piscina. Acordei, mas não vi ninguém me olhando. Não parecia que eu havia sido sacaneado e de longe pude avistar my Nigga apontando e rindo pra mim, heh. Já era "tarde" e os amigos da índiazinha de canga preta estavam de saída. "Você vem com a gente?" perguntaram à ela. "Não sei..." eu precisava fazer algo. "Fique! Eu te dou carona pra casa, depois!" ela não precisava saber que eu não estava em condições de dirigir e muito menos ainda que nem de carro eu estava! Heh. Pois que ficamos ainda mais um tempo por lá, até que por volta das 20h, o som parou. Assim como nossas energias. Era hora de voltar pra casa e quelle surprise quando my Nigga se propôs a nos levar para casa (UFA). Éramos 4, então. Dois casais no pugzinho, rumo ao infinito. Mentira, só nos deliveries para o repouso final. Sei que lá pelas tantas, a nega do molejo mole pergunta à loira: "Ai amiga, desculpa, mas como que é teu nome, mesmo?", "Priscila, muito prazer!". A hora era agora. Nem titubeei e já lancei: "Priscila, agora seria de bom tom que você perguntasse à jovem dama, qual o seu nome". Vitória! Óbvio que ela percebeu meu vacilo na hora, mas foi gentil o suficiente pra tomar tudo como uma grande brincadeira. À porta de sua casa, mais beijos e a troca de números que possibilitaria todo um novo mundo de experiências e romances... #xonei <3 o:p="">

Cara Desatenção

Existe o meu aparelho celular; eu ganhei ele de uma pessoa muito especial e notei que suas películas de proteção (frontal e traseira) estavam já pra ser substituídas. As bordas já estavam descolando e nas suas extensões era possível ver muitos arranhões e sujeira. A parte de trás foi a primeira a ser removida, e com pretensão de comprar uma nova já na sequência, nem me poupei de esforços e a arranquei num puxão só. E foi quando eu percebi que havia, em seu canto superior esquerdo uma rachadura em forma de raio com 5 linhas iniciais que se dividiam em várias outras percorrendo uma polegada daquele canto todo e duas linhas maiores que chegavam até a outra extremidade do celular, quase atingindo sua ponta de baixo.

O quê foi que eu fiz, meu Deus? Havia arrancado o escudo que restava da proteção posterior do meu aparelho. Pior! não havia nem notado que ele estava quebrado antes, por dentro! Em toda a minha prepotência, alegava zelar e amar o aparelho como a ti mesmo, pois afinal de contas, era um pedaço de ti, que passavas para mim! E eis que de repente não consigo nem colocar a película novamente, numa tentativa frustrada de mascarar o erro, mascarar o problema. Há quanto tempo será que aquele machucado residia por ali? Por quê ignorei a queda que causou tal ferimento na hora? Por quê tratei com tanto descaso o seu amor por mim? Sou culpado de toda a minha tormenta, meu castigo só pode ser o de ter de conviver comigo mesmo. Tendo a ciência de que tudo é culpa minha. De que não cuidei do que deveria, de que não há conserto para as feridas no coração. Onde estava focada a minha atenção nos últimos tempos e qual foi a máscara que tampava todas essas rachaduras? Estava cego. Inseguro? Cansado. Deixei você escapar das minhas mãos e não consegui segurá-la. Se espatifou com tudo no chão duro. Terá ficado muito tempo no relento, sentindo frio, se molhando com a chuva, sendo chutado pelos outros? Te abandonei. Eu sou um monstro. Em tudo que te prometi, falhei. Só ficaram as memórias de um amor que se acabou. "Nos meus olhos lágrimas / por amar alguém / que esteve ao meu lado e se foi".

Não é isso, Oliver. Eu sinto falta de algumas coisas, mas quando penso em outras, eu desanimo. Você me transformou em um coração de pedra. Nunca mais amarei alguém. Não consigo liberar meu coração. E nem querer mais algo com alguém. É isso o que acontece. Foi isso o que você fez comigo.


Ah, pra quê viver, então? Ela não se importa mais comigo - qual a razão de viver, então? Sem minha princesa, eu poderia muito bem acabar com tudo. Será a vida é uma prisão em que a única chave é a morte? 

Mas eu...

Senti...

seu, pra sempre

Faz cinco dias que eu pedi para que parasse. Que parassem as dores, as expectativas que vinham sempre frustradas. Terei sido egoísta demais, talvez? Você sempre dizia que eu te apoiava em tudo o que fazias; que era perfeito pra ti. E eu achei que fosse.
Eu sou apaixonado por você! Nunca deixei de ser. Te admirei desde sempre, pelo talento, pelo desejo tão simples e  significativo; "quero ser a melhor".  Pelo modo como se comportava, sempre tão séria e compromissada com o trabalho, ao mesmo tempo em que, junto de outros parceiros, se mostrava brincalhona e divertida!
Quando essa admiração virou paixão, não havia mais o que fazer. Eu estava totalmente embriagado de amor... Seu beijo era tão doce! Do tipo que faz qualquer um esquecer amores passados. É verdade que demorei para me assentar... tratava-se de uma mudança de vida, construir uma relação e transformar dois em um. minha nossa, o que foi que eu fiz?
Falhei diversas vezes... não fui verdadeiro, omiti coisas, te coloquei em segundo plano, quando você deveria estar até mesmo na minha frente. Eu te amo, pombas! Tudo por conta do esquecimento, do descompromisso, da minha cabeça idiota... Eu sou muito burro! E aí você foi embora. E eu prometi ir atrás de você, mas não fui. E aí você foi embora e eu não fui atrás de você. Mas que droga! Por quê é que eu não fui atrás de você? Eu não te amo? Estou com medo de me jogar? Mas você também teve medo, estou certo disso. E você encarou! Com a cara e a coragem... E eu não fui... sou um covarde... mereço sofrer, por tudo o que te fiz passar... por não estar junto de você, agora... I'm sorry.
Faz cinco dias que eu pedi para que parasse; o meu sofrimento, a minha angústia perante sua ausência e indiferença. Sou inseguro, percebe-se. Preciso de atenção, preciso saber que você está lá.. Terei esquecido sua posição? Uma garota cheia de potencial, com uma carga imensa nas costas, com olhares de soberba e inveja ao redor. Sentindo a pressão e acreditando que você TEM que vencer... é difícil pensar o contrário. Sei como é não querer desapontar ninguém. Sei como é difícil chegar ao topo e mais ainda manter-se nele. Fui egoísta em querer atenção? Ou será que eu queria atenção demais? É provável... Mas que loucura eu fiz. Abdicar do teu amor, mesmo que ínfimo (aparentemente), para me encontrar no vazio. Para chorar no dia, para chorar de noite, soluçar em todos os lugares e ter que me esconder no banheiro. Por que é que eu me torturo tanto? Eu não aguentava mais, no entanto. Eu quero morar contigo, quero casar contigo. Seria tão melhor... diferentemente bom e melhor. É muito egoísmo meu? Você cresceu tanto.. mudou tanto... Está tão adulta, tão... fascinante! Sabe o que quer. E se sabe o que quer, certamente deve saber o que NÃO quer. Talvez você esteja melhor sem mim (18/05)?
O que foi que eu senti? Senti o que eu previa; ao invés de esperar por uma resposta, por uma resposta que eu sabia que não viria. Mas isso é melhor? Apenas me dá o direito de não ficar bravo com a demora. Coisa que eu já não tinha antes, mas que o fazia, assim mesmo. Como eu sou tolo... Muita coisa precisa ser revista. Meu conceito deturpado do que é xxx de verdade. Sobre comprometimento e futuro. Bom, eu agora me comprometi a me tornar um homem decente e justo. (...)
Tenho honra ainda? Maldito orgulho... eu preciso me concentrar muito. Não esquecer o que eu quero. Te fazer feliz, e se possível, se você também quiser, ser feliz com você.
Maldita insegurança. Tenho medo de que você desista de mim (como eu acabei de fazer? Af, Oliver, seu idiota), de passar o tempo necessário e você se apaixonar por outro, de descobrir que não sou o cara certo pra você. Se bem que... se isso for verdade, não há o que eu possa fazer. PELO MENOS A LIBERDADE eu devia lhe dar... en realité, não é questão de te dar, desculpe-me. Eu NÃO posso lhe tirá-la. E eu tenho que aceitar isso. Mesmo que sua decisão, posteriormente, não me inclua no seu futuro. Você já fez tanto por mim... droga! Porque não pude apoiá-la nesse momento também? Grrr! Como sou idiota! E agora já está decidido; pensas um dia voltar, mas agora não dá. Desculpa. Preciso parar de choramingar. Preciso tratar disso como (...) Ser adulto. Maduro. Aceitar o que o destino me guardar. Me desculpa por tudo.. pelo desabafo, pelas tristezas, pelo desespero, pelas lágrimas... sinto muito...
 

por você, mil vezes

Outra história

Como tudo começou eu nem me recordo mais, todavia, isso pouco importa. O fato é que como de costume, encontravam-se no intervalo de aulas. Cheila estudava Letras na Universidade de Oliver e isso muito lhe agradava devido ao fato de que ele, por algum tempo, desejara ter feito o curso em questão. Tem como hobby mais corriqueiro corrigir o português das pessoas e ler. Sua sala ficava muito próxima de uma das cantinas, que estava longe de ser a melhor, mas enfim. Não possuia sanduiches feitos na hora e era possível somente adquirir refrigerantes da marca Coca - o que sim, era considerado ruim para ambos. Mas vendia os deliciosos sanduiches naturais de atum que tanto apeteciam Cheila, então bastava. O encontro era cheio de beijos e com um abraço longo.
-Senti saudades de você, hoje! É uma pena que só possamos nos encontrar aqui, nos dias de semana -lamentava Oliver.
-Ah, pelo menos isso, né... E você vai me dar carona hoje, não? A gente pode ficar curtindo lá em casa, uma carinha...
Oliver passara então asorrir ainda mais. "Opa, aí sim, hein.." e deu uma risada. "Te espero no meu carro ali no final da aula, então?" Perguntou, e assim ficou combinado.
A aula, no entanto, parecia que não acabava nunca! O irritante assunto de estatística não ajudava o fato de que Oliver

Depois de uma semana

Trêmulo, foi primeiro até o banheiro, descalço, mesmo. Chegou a reparar na sua frieira entre os dedos do extremo esquerdo. "Ainda não fui ver isso" pensava ele, "logo meu dedo cai, hehe". Deu sua mais falsa risada do ano, pensando na tosca piada que acabara de fazer. Receava qualquer possível contato com Laura. "Será que abro meus e-mails?" questionava-se. "Tenho medo." Resolveu desfrutar de seu acalmante favorito: leite gelado com açúcar mascavo. Oliver era mais dos salgados, nas festas de aniversário ignorava totalmente os brigadeiros, tinha apenas olhos para os pequenos risoles - normalmente de carne - gordurosos e saborosos. Bolos com vela, então.. não chegava nem perto. "Doces demais" ele dizia. Mas açúcar mascavo dissolvido no leite gelado.. esse ele não conseguia recusar, era bom demais. Com a xícara na mão, começou a passear pela casa. Observava os retratos dos parentes e pôsteres de seus filmes favoritos.

Parte II (Alternativa)

-Sabe, Oliver... eu gosto muito de ti! Muito, muito, muito, muito, muito mesmo! Mas seria melhor se tu não gostasse de mim.
-...
-E eu acho que tu só gostas de mim porque eu não quero nada contigo.
-Isso fará sentido, em algum ponto?
-Tu és bonito e pode ter um monte de garotas bonitas. As que te querem; desdenhas, e quanto as que não te querem, corres atrás! Simples assim. Já mesmo chegaste a admitir isso, certa vez. É assim que funcionas!
-Isso não é verdade! Pode até ser que eu já tenha funcionado dessa forma, mas já faz um bocado de tempo. Peço que recorde-se de Mayara; por mais que eu gostasse dela e estar perto dela me fizesse bem, não me sentia atraído o suficientemente para continuar com. E também quanto à Débora. Não foram escolhas minhas! Elas que optaram por deixar-me.
-Eu não sei porque tu gostas de mim, sério! Eu sou tão o OPOSTO de todas elas! Sabe... eu já pensei em tentar ficar contigo. Mas não consigo. Pra mim já deu. INFELIZMENTE! Porque eu sei que tu é disposto a ficar comigo e que me tratarias bem. Me tratas bem. Enche-me de mimos e eu gosto disso! Mas não consigo... simplesmente não consigo. Sou eu.
-Sim, o problema nunca sou EU, sempre a outra pessoa, claro... Déjà vu. E eu sou tão fucking extremista que agora só consigo pensar em entregar tua blusa e sumir da tua vida. Tenho protelado a entrega dela por aguardar um momento em que estivessemos a sós, sabe... um momento só pra nós dois...
-Faça o que for melhor pra ti, se tu achas melhor te afastares, te afaste.
-E desde quando eu penso em mim?
-Pois deverias.
-Desde quando eu conseguiria afastar-me?
-Deverias...
(...)
-Certo, tentarei. Ahm... Tentar o quê, mesmo? Haha, perco-me em vertigens! Ah, sim. Tirar você da cabeça DAQUELE jeito.
-Por favor.
-Se tu pedires, estarei fazendo isso por ti, e não é bem essa a ideia, certo? Devo tentar por MIM!
-Exato, por ti.

Adeus, Oliver

Não, não é a mesma rotina que está voltando, algo está diferente. Perceptível demais! Os dias continuam nublados e o sono ainda é interrompido brutalmente com o bater de janelas ao vento, todavia, em sua cama, um aroma diferente. O suave almíscar do perfume dela agora residia ali. O susto do despertar logo fora esquecido e substituído pela sensação maravilhosa das lembranças sem cachê da noite passada. Percebe que seus braços agora abraçavam o travesseiro da mesma forma à qual mantinha, de forma confortável e segura, sua amada protegida. Nem mesmo o mais fofo de seus travesseiros encaixava-se tão perfeitamente quanto ela própria, tamanho amor que ali existia. Não pretendia levantar-se, sentia sua falta, mas sabia que de nada adiantaria ali ficar parado. Era hora de fazer o tempo passar.

Não ficou surpreso ao perceber que continuavam com as mesmas expressões de sempre. Não havia vida naquele lugar, tampouco amor naqueles corações. Tudo tão cinza... Não o suficiente para tirar o sorriso bobo de menino apaixonado que se plantou na sua cara desde que sentira o perfume, logicamente. Du Riechst so gut, concluiu.

Estou tão feliz! Culpo-me por ter fugido de tamanha felicidade por tanto tempo. Tantas pendengas bobas, mas que no momento pareciam fazer sentido, dadas as circustancias. E por conhecer sua história, apaixonou-se ainda mais. Nada como declarações verdadeiras para dar um up na relação.

E no meu início aquela inocência ingênua admirava já ao extremo toda aquela propagação raivosa de idéias que o afogavam de novas considerações e possibilidades. Num momento nada feliz para nosso pequeno (mas rígido) aventureiro, ser encontrado por outra revoltada que, por sua vez, tinha sim a habilidade de expor seus sentimentos, enquanto ele apenas lamentava e sofria sozinho, possibilitou facilmente uma fuga do abismo. A fixação inicial era mesmo o intelecto, mas o que existiria por trás daquelas máscaras em que se escondiam? De que ele tinha medo e por que fugia tanto?

Maldito o momento em que se encontraram. Eram sem sombra de dúvida feitos um para o outro. Sorrisos alegres e abraços confortantes. A conversa fluía de uma maneira toda especial e sentiam-se à vontade para usufruir completamente de uma sinceridade impressionante (quem sabe até excessiva) com seus gostos e opiniões. Mas o momento... Maldito seja este, ao desfavorecer DUAS vezes o relacionamento desses dois. Sorte nossa que persistiram. Omitirei certas passagens por ora apenas para não quebrar o clima, mas eis que enfim, encontram-se! E quão extasiados ficaram ao perceber que eram o someone like you do outro! Foi uma sucessão de afagos, carinhos e gracejos sem precedentes! Haviam finalmente libertado-se para amar.


Atordoado demais

Quase não me acredito que finalmente uma chance apareceu! Eu estive durante tanto tempo assim: incapacitado de escrever... Sei lá se foi minha abstinência de leitura, ou então o meu longo estágio sóbrio, tanto faz... Feliz me fizeram os deuses a me permitirem voltar a escrever!

Talvez eu não tenha exata certeza do que estou escrevendo aqui no papel, mas essa é a minha vontade no momento! Suplico-vos neste instante:

“Olá, me chamo Oliver e tenho 17 anos esse ano. Não sei se isso realmente importa para vocês, no entanto, aqui para vocês está: Estou, no momento, apaixonado por certa garota. É grande verdade que nem próxima de mim vive, feliz seria eu, caso pudesse me controlar.

Todas as minhas oferendas passadas ainda são válidas, can’t you see? Basta apenas que as aplique à si. Porque deverias fazer isso? A VERDADE ESTÁ NA SUA FRENTE! COMO PODE VOCÊ NÃO NOTAR QUANDO ISSO TUDO FAZ PARTE DE VOCÊ TAMBÉM! Quem sabe ninguém está preparado pra isso? Acredito que todos pensem, tenham aquele ‘medo’ de assumir realmente o que queria explorar.

Denunciado

Hoje recebi minha primeira denúncia anônima. Ligaram para o meu chefe. "Me diz uma coisa... esse Oliver é teu funcionário, nénão? To preocupado com ele, viu... anda bebendo demais... Já faz uns três dias seguidos que encontro ele entornando umas. Enfim, tô só dando um toque. Tu decide aí o que faz com a informação." Até agor anão sei quem foi. E na verdade não estou muito curioso quanto a isso. Lembro de realmente ter ido algumas vezes ao quiosque. Se é necessária uma justificação; estava a celebrar a vida. Então eis que algum covarde que sabe quem eu sou, temendo falar comigo, dirige-se ao meu chefe.

Ele vem até mim: "Preciso ter uma conversa séria contigo. Já volto" diz ele enquanto caminha em direção à sua sala. Puta que pariu! Ansiedade máxima! Odeio quando fazem isso comigo. No entanto, por mais que eu me esforçasse, não conseguia imaginar o que estava por vir. "Não fiz nada de errado", conclui. Quando o discurso dele começa, bate forte. Fiquei feliz por não ter chorado ao explicar todas as minhas infelicidades e agonias, ele não pareceu surpreso. Soou compreensivo e deu-me sugestões construtivas. Descobri que estou à procura de alguém como eu. Que procuro alguém do meu nível e não encontro, são todos muito fracos. Não merecedores da minha companhia. Aliás... até tive alguém assim... tive alguém como eu... só que... não era natural! Não foi como se eu tivesse te encontrado e percebido que você é assim, perfeita para mim. O fato é que você se adaptou para que eu ficasse feliz. Penso que não é assim que deveria ser. Descobri que sou infeliz com minhas amizades, utilizadas como subterfúgio para sobreviver ao dia. Talvez não sejam tão inúteis assim. É impossível viver só sorrindo.

A felicidade nada mais é do que pequenos momentos em que excluo-me do mundo externo para aproveitar a sutileza de minúncias às vezes despercebidas. Conversa terminada, senti-me como depois de uma sessão ao psicólogo. Fiquei triste, impediram-me de ficar triste! Preciso de álcool.

Ingra, te dou, sim. (2m)

-365 dias, hoje.
-Hein?
-Já passou o ano. O ano em que eu não pude te ver.
-Nossa, faz tanto tempo assim? Nem percebi.
-Consegui! Como prometido, fiquei um ano sem te procurar, sem te consultar, sem te abraçar, beijar, acariciar... Puxa vida, um ano... é tempo pra caralho.
-Haha, se você diz...
-Não fiquei contando os dias, mas sempre que eu via a folhinha com o número 23, uma dor forte no peito aparecia, ao mesmo tempo que uma pequena felicidade em saber que a contagem regressiva ainda existia. Doze meses... Como tem passado?
-Hehe, bem... ótima, na verdade!
-Hm...
-Noivei, Oliver, to bem feliz. Ah, estou de emprego novo! Bem legal.
-Mhmn... fico feliz! Você merece ser feliz!
-^^
-^^
-...
-E agora?
-Agora to aqui teclando, nada demais, ouvindo umas musiquinhas...
-Não, to dizendo entre nós, como ficamos? (esse remédio jamais vai curar)
-Nada mudou, Oliver. Eu tenho lido você, continua o mesmo babaca mulherengo, sem respeito pelos outros. Espera mesmo que eu largue o futuro perfeito que tenho pela frente com meu noivo e dê as costas par ao mundo, juntando-me com você? Sendo que uma vez que você obtenha o que deseja - momentaneamente - deverá, como de praxe, abandonar-me em busca de alguém "melhor"? Prefiro ficar sozinha, vê se pega teu rumo.
-...
-...
-Você... não pode estar falando sério... tudo o que sacrifiquei, todos os meus esforços... em vão? Não pode ser assim.
-Adeus, morra bem.

Uma Semana

A manhã fria e cinzenta chegava como de costume, com vários pássaros cantando e voando de galho em galho. O sol ia aparecendo, tímido, e iluminando o quintal da casa de Oliver. Um vento gelado penetrava por uma pequena fresta em sua janela do quarto. O modo como sua cama estava disposta deixava seus pés exatamente na direção da corrente de ar. Não dormira muito bem, seu sono conturbado o fizera mudar diversas vezes de posição e, por fim, os pés acabaram ficando descobertos. A tépida manta cobria agora, apenas a metade superior de seu corpo. “Não quero”, pensava já acordado, “levantar. Não agora, não hoje.” Oliver sabia o que lhe aguardava. Eram 06h17min da manhã, do dia 4 de maio.

Quatro semanas antes, em um sábado sem nuvens no céu, como de praxe, Oliver saiu com dois de seus melhores amigos; Júlia e Jonatan. Conhecidos da universidade, eram irmãos por parte de mãe. Ele promotor, em licença temporária por motivos que não nos interessam no momento e ela, universitária de Medicina Veterinária. Sempre saiam juntos, compartilhavam o mesmo gosto musical e acabaram por tornando-se muito íntimos. Decidiram que naquela noite iriam à casa de Cristina. Apenas para jogar conversa fora, gravar alguns vídeos e tomar cerveja. Cristina era uma excelente anfitriã e sabia fazer com que todos se sentissem à vontade. Outras pessoas, até então desconhecidas para Oliver e seus amigos, também estavam lá. E foi nesse dia que ela apareceu. De longos cabelos negros e ondulados. Sua estatura mediana baixa fazia-a a menor dos presentes – não que isso importasse alguma coisa. Era de origem italiana, mas quando ela timidamente sorria, seus olhos banhados em rímel e lápis muito se assemelhavam aos de uma oriental. E se tinha algo que deixava Oliver desnorteado era o olhar carismático de garotas de olhos puxados. Não seria exagero dizer que ele rapidamente se encantou pela moça, já que além dos olhos apaixonantes, Laura – seu nome – era caucasiana e possuía frágeis sardinhas nas maçãs do rosto, uma preciosidade!

Laura, até então comprometida, também acabou por se mostrar interessada em Oliver, mas nada aconteceu. As poucas palavras que trocaram naquela noite não foram além de cordialidades. A surpresa ficou por conta de que dias depois ela telefona para Oliver – o modo como ela conseguiu descobrir seu número e contatá-lo é mistério até hoje – e convida-o para sair. “Não estou mais namorando”, explicava pelo telefone “e sei que você também quer sair comigo”. Mesmo achando a situação meio estranha, Oliver topou, e ao encontrá-la no local e hora marcada, fora recebida diretamente com um beijo e um abraço. Mal podia acreditar que sem esforço algum conseguira tocar os lábios da nipo-romana. Desconcertado, desequilibrou-se, mas apoiando-se em um balcão, conseguiu evitar que caísse na frente de todos e, principalmente, dela. Conversaram durante o almoço e não tardou para que se descobrissem como feitos um para o outro. Ambos com habilidades e feitos fascinantes em suas distintas áreas. Inclusive que cursaram línguas na mesma escola, anos atrás. Uma das habilidades compartilhadas era a de memorizar textos, portanto, conseguiram facilmente recitar os poemas um para o outro, ali mesmo.
Esse era o de Oliver:
“I had a big dream,
I dreamed with you,
In my dream we rode horses in the field…
Stopped on the barn
We were wet because it was raining and we kissed
We were in love
I woke up and saw that it was not true, only one part…
We really are in love
I have the same dream everyday and all the time.”

E este o dela:
“I had a dream last night, I dreamed with you.
In my dream you were my sweet prince.
We were running in the field and kissed.
It was a sunny day and the sky was blue, no clouds.
We looked at the ocean, but then, you disappeared, just like everything else.
I woke up this morning and played our song.
I hid my tears.
You’re still in my lonely mind, and I call you all the time,
but now I know that you don’t exist, you’re my perfect dream.”

Eles sabiam que não falavam um sobre o outro, mas no fundo, gostariam que assim fosse. Soava tudo tão maravilhoso. E então, Oliver passou a melhor semana de sua vida. Laura mostrava-se de personalidade forte e grande espírito amoroso. Era muito atenta a detalhes e conseguiu, de forma singela, conquistar Oliver. A troca de carícias os remetia a novas sensações e experiências. Parecia que se conhecessem há anos, mas mesmo assim, com sensação de coisa nova. Compartilhavam sentimentos e sentiam-se seguros quando estavam juntos.

No oitavo dia que estavam juntos, dia 3 de maio, as coisas mudaram. Oliver retornara de uma viagem de apenas algumas horas e foi almoçar junto com Laura. Podia perceber facilmente que ela estava diferente. Não conseguia muito bem olhar nos olhos de Oliver e parecia trêmula e incomodada com alguma coisa. Na ida para o restaurante passaram por um parque no centro da cidade, onde madames passeavam com seus cães, pais entretinham os filhos e casais namoravam nos banquinhos. Naquela tarde podia-se inclusive ver um grupo de idosos se exercitarem e cantarolarem antigas canções.

“Eu”, começou Laura “tenho uma coisa bem chata pra fazer hoje”. Rapidamente pela mente de Oliver, pensamentos de possíveis transtornos que uma aluna de Medicina Veterinária poderia ter durante o seu curso, iam e vinham, mas o que viria a seguir ele nunca poderia ter imaginado. “Hoje”, continuou “eu vou conversar com o Pietro”.
E assim desenrolou-se o diálogo.
-Pietro? Ele não é seu ex-namorado?
-Sabe Oli, ele me magoou muito no passado. Nossa relação sempre foi muito inconstante, na verdade. Ele não conseguia demonstrar seu amor por mim, mas eu sabia que ele me amava. Chorou muito quando nos separamos, uma vez. Fiquei sentida e voltamos. Tudo isso para que uma semana depois, ele resolvesse que não quer mais estar comigo. Dizia ser jovem demais para estar preso a uma relação como a nossa. Queria sair mais, viajar... E aparentemente eu o impedia de prosseguir com seu plano. Fiquei meio abalada, mas acontece, né. Eu é que não quero ser a causa da infelicidade dele. Até aí tudo bem, mas ele me ligou, enquanto você estava fora. Disse que queria voltar comigo. Eu ainda gosto muito dele, sabe... Contei que eu estava contigo e ele ficou muito bravo! Babaca... Como se ele não tivesse ficado com ninguém, mesmo. Disse que estaria disposto a deixar as bobagens de lado e voltaria comigo. Ficamos de conversar pessoalmente hoje de noite.
-Você ta realmente considerando isso, Lau?
-Ai Oli, você sabe que eu gosto muito de ti! Diverti-me muito nessa semana, foi tudo muito bom! Mas eu prefiro me encontrar com ele hoje e colocar tudo na mesa. Quero ver o que ele tem pra me dizer. E assim, é hoje a decisão final, ou tentamos novamente ou nunca mais! Não gosto de ficar nesse “chove-não-molha”. Eu não tinha certeza de que queria te contar isso agora, não sei se é melhor assim... Fale alguma coisa!
-Foi ótimo que você tenha me contado isso antes. Não posso nem imaginar como seria nossa conversa depois desse seu encontro de hoje, sem que eu estivesse ciente do que pode acontecer. Você não sabe como isso impactou aqui no meu peito. Estou muito desapontado comigo. Como pude me deixar apaixonar por alguém, sem ter a certeza de que ela me amava da mesma forma? Eu não quero ser chato, inconveniente, Laura. Não vou lhe dizer que você conseguiu me fazer sorrir novamente, me guiou para a luz, tendo me tirado do profundo estado de depressão emocional em que eu me encontrava. Você mesma agora me diz que há a possibilidade de tudo isso acabar, rápido assim. Não quero dizer que sofro já, antes mesmo de qualquer coisa ser decidida, apenas com a possibilidade. A agonia da espera por uma resposta que mesmo não participando do debate, estou fortemente incluso no resultado, me arde no peito já nesse exato momento. Tremo de desespero com a incerteza do amanhã. Hoje mesmo pode ser que não mais pense em mim antes de dormir. Que esteja com o outro. Que bobagem estou dizendo... Está mais do que claro que eu é que sou o outro. Eu que me intrometi na vida de vocês.

Sem ter muita certeza do por que, Oliver abandona a amada e dirige-se, em passos largos e apressados para casa. Mil pensamentos percorrem sua mente, em confusão. Todos os sons à sua volta começam a soar horrendamente mais estrondosos do que o normal. As vozes das pessoas conversando tranquilamente davam a Oliver a sensação de estar dentro de um sino gigante, badalando ao meio dia. As buzinas dos carros mais pareciam uma turbina de avião sobrevoando sua cabeça a menos de um metro de distância. Teve vontade de gritar, e assim o fez, caindo de joelhos, apoiando-se com as mãos na grama já úmida. Lágrimas começam a correr incessantemente, chamando a atenção de alguns andantes, mas ninguém parou para afagá-lo. A grande maioria apenas virava a cara, demonstrando desprezo. Soluçava como nunca antes soluçara, faltava-lhe ar para respirar e engasgava-se quando tentava falar, ou pronunciar algo. Nenhuma palavra podia ser discernida, mas grunhidos certamente se ouviam e era possível perceber sua intenção de dizer algo. Em vinte minutos esgotou suas forças e caiu desacordado.

Pássaros agora já não mais cantavam. A luz artificial era fraca, mas presente. Nenhuma lua podia ser vista no céu. No lugar de pessoas, grilos e sapos conversavam entre si, discutindo nada muito relevante, coisas pelas quais grilos e sapos costumam se importar. Em três horas o céu tornara-se escuro. O sol há muito já havia se posto, mas sem um substituto oficial. Em três horas ninguém tocou em Oliver.

Despertou tonto e com a sensação de uma grama muito mais tépida do que lembrava. Sacudiu as calças e a camisa ao levantar-se. “Nossa”, começa a refletir sozinho “devo ter bebido muito para ficar dormindo em plena praça” O choque havia sido tão grande que perdera momentaneamente sua memória recente. Ajuntou a chave de casa, que até então jazia no chão, e para lá se dirigiu.

Chegando em casa, deu por conta de que deveria estar na aula, mas não lembrava do porque ter faltado ao trabalho. “Eu não costumo beber durante o dia. E não me sinto com ressaca; não fiquei bêbado coisa nenhuma”, concluiu. “Vou ligar pra Laura, ela deve saber o que é que eu andei aprontando”. E foi aí que ele percebeu. Estava sozinho, e sua memória havia voltado. “Ok, Oliver”, tentava acalmar-se, “fique calmo. Tudo ao seu tempo. Não é só porque vocês não estão juntos agora que não poderão estar juntos no futuro. Mas o que será de nós depois de hoje? Mesmo que eu seja o escolhido, que você permaneça ao meu lado de forma brilhante, como foi essa última semana, voltaremos do jeito que éramos? Conseguirei eu te olhar do mesmo jeito? Beijar-te? Amar... te?” Remoendo-se na cama até quatro da manhã, novamente a exaustão o leva ao desmaio. Já não é mais forte o suficiente para agüentar.

A manhã fria e cinzenta chegava como sempre. “Não quero”, pensava ele, já acordado, “levantar. Não agora, não hoje”. Sabia o que lhe esperava. No hall de entrada de sua casa, deslizada por debaixo da porta, poucos minutos antes, havia uma carta de Laura. Ela havia escolhido o outro.
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